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65 – Nelson Cavaquinho – Nelson cavaquinho (1973)

maio 21, 2009

Um disco do Nélson Cavaquinho recheado de clássicos. Juízo Final, Folhas Secas, A Flor e o Espinho, Quando eu me Chamar Saudade, entre outras. No entanto as músicas que destaco não é nenhuma delas. Caminhando, um grande choro em que Nelson volta a tocar o instrumento que seguia o seu nome, o cavaquinho. E a outra faixa que merece atenção é Visita Triste, talvez um dos mais belos sambas do “lado B” da dupla Nélson e Guilherme de Brito. Veja abaixo a entrevista que acompanhava o LP feita por Sérgio Cabral.

SÉRGIO CABRAL – Nélson, você tem certos parceiros que são “quentes” e outros não. Com quem você gosta de fazer música?
NÉLSON CAVAQUINHO – Eu comecei fazendo música sozinho. Naquele tempo, havia os cobras, a turma do Café Nice, o Wilson Batista, aquele pessoal. Um dos meus primeiros parceiros foi Evaldo Rui, que fez comigo “Aquele bilhetinho”.
SÉRGIO – Mas o nome dele não aparece no samba. Aparecem outros.
NÉLSON CAVAQUINHO – Mas ele fez a letra. Tivemos um encontro na casa da Eliseth Cardoso e ficamos amigos. Ele fez depois uma outra letra pra melodia minha. Foi um dos melhores letristas que conheci. Agora, meu parceiro mesmo é o Guilherme de Brito, meu grande amigo, e está neste disco cantando comigo pela primeira vez.
SÉRGIO – Como foi que vocês dois se conheceram?
NÉLSON CAVAQUINHO – Eu estava sempre em Ramos. Naquele tempo eu não estava bem. Eu tinha me casado e o casamento ia mal. Bem que meus pais me avisaram: Nélson, ainda é muito cedo pra você se casar”. Minha casa não tinha nada. Nem sabonete pra tomar banho. Puxa, estou mudando de assunto. Naquele tempo, eu estava tocando violão num botequim perto do Parasitas de Ramos. Começamos a fazer música e continuamos até hoje. Ficamos amigos também. Às vezes eu chegava de ressaca na casa do Guilherme e a família dele botava uma esteira pra eu dormir.
SÉRGIO – Nesse disco, você grava pela primeira vez tocando cavaquinho. Há quanto tempo você não tocava esse instrumento que, afinal, lhe deu um outro sobrenome?
NÉLSON CAVAQUINHO – Comecei tocando cavaquinho, na Gávea. Os meus primeiros cachês de cinco mil réis, foram ganhos com cavaquinho, nuns shows arranjados pelo Ricardo, que já morreu — Deus o tenha no Reino da Glória. Havia uma turma que fazia choro pra derrubar, mas eu fiz um que derrubei todo mundo. Aí, eles passaram a acreditar mais em mim. Há pouco tempo, chegou um camarada no Teatro Opinião e falou assim: “Ô Nélson, eu não vim aqui pra ver você tocar violão, eu quero é ver você tocar cavaquinho”. O cara estava de pileque, estava cheio de alpiste, de maneira que queria porque queria me ver tocando cavaquinho. E eu falava: “Rapaz, eu não toco mais isso”. Quase acabaram botando o cara pra fora do teatro.
SÉRGIO – Mas você acabou gravando com cavaquinho.
NÉLSON CAVAQUINHO – Pois é, o cara perguntava: “Você não é o Nélson Cavaquinho? Tem que tocar cavaquinho”. Por causa disso, acabei tocando neste disco um choro meu chamado “Caminhando”.
SÉRGIO – E como é que você se sentiu tocando cavaquinho?
NÉLSON CAVAQUINHO – Eu me senti bem. O Dino do violão falou assim pra mim: “Nélson, sola o choro pra eu aprender”. Eu toquei e o Dino entrou direitinho com o violão. E fui em frente. Porque pobre não vai só em frente quando a polícia corre atrás, não. Fui em frente mesmo.
SÉRGIO – Você compôs este choro com cavaquinho ou com violão?
NÉLSON CAVAQUINHO – Olha, Sérgio, eu nunca fiz uma música pegando instrumento, sabe? As minhas melhores músicas, como “Notícia”, foram feitas no botequim. Às vezes, eu sonho que estou fazendo uma música bonita mais quando acordo não me lembro mais de nada. Agora, alguns amigos vão me dar um gravador de presente no dia do meu aniversário, 28 de outubro. Vai ficar mais fácil. Gravo a melodia, depois ponho a letra.
SÉRGIO – Você vai fazer 62 anos, não é?
NÉLSON CAVAQUINHO – Não, 63.
SÉRGIO – Que isso, Nélson? 62 anos.
NÉLSON CAVAQUINHO – É 63 mesmo.
SÉRGIO – Em que ano você nasceu?
NÉLSON CAVAQUINHO – Em 1911.
SÉRGIO – Então, 62 anos.
NÉLSON CAVAQUINHO – Que bom, rapaz, ganhei mais um ano de vida. Meu velho morreu com 72 anos. Não sei se chegarei lá ou não. Eu espero chegar lá, se Deus quiser.
SÉRGIO – Mas como é que você faz pra se lembrar da melodia, quando você compõe no bar, por exemplo, já meio de pileque?
NÉLSON CAVAQUINHO – Quando eu gosto mesmo, não me esqueço. Às vezes, faço um acorde no violão e penso assim: “por este acorde vou me lembrar amanhã da melodia”.
SÉRGIO – Este disco está muito bom inclusive porque você aparece tocando violão em quase todas as músicas.
NÉLSON CAVAQUINHO – É, o Pelão fez questão que eu tocasse violão também. A minha voz você sabe, é rouca mesmo. Mas o… como é mesmo o nome daquele homem lá da América do Norte? Ah, o Armstrong ele também era rouco. Há pessoas que gostam mais da minha voz do que a de muitos cantores por aí. Não sei porque, acho que é porque eu sinto. Há cantores que mataram a minha música. Eu tenho sentimento quando eu canto.
Músicas:

1 – Juizo final (Élcio Soares – Nelson Cavaquinho)
2 – Folhas secas (Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)
3 – Caminhando (Nourival Bahia – Nelson Cavaquinho)
4 – Minha festa (Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)
5 – Mulher sem alma (Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)
6 – Vou partir (Jair Costa – Nelson Cavaquinho)
7 – Rei vadio (Joaquim – Nelson Cavaquinho)
8 – A flor e o espinho (Alcides Caminha – Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)
Se eu sorrir (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
Quando eu me chamar saudade (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
Pranto de poeta (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito) participação: Guilherme de Brito
9 – É tão triste cair (Nelson Cavaquinho)
10 – Pode sorrir (Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)
11 – Rugas (Garcêz – Ary Monteiro – Nelson Silva)
12 – O bem e o mal (Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)
13 – Visita triste (Anatalicio – Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho)

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